Irã insiste em urânio enriquecido a 20%
| Autor(es): Thomas Erdbrink |
| O Globo - 28/05/2012 |
País alega precisar de material para sustentar reator médico e anuncia a construção de novas usinas nucleares em 2013 TEERÃ . O governo iraniano não vai abandonar seu projeto de enriquecimento de urânio a 20%, anunciou ontem o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Fereydoon Abbasi. A medida foi interpretada como um recuo diplomático de Teerã, que já sugerira estar preparada para cessar a produção do material nuclear. Abbasi também anunciou que o Irã iniciará a construção de duas novas usinas nucleares no ano que vem. Segundo ele, o único reator nuclear ativo da república islâmica está se aproximando de seu nível máximo de produção, após um atraso que já durava muitos anos. O funcionário deixou claro que não haverá suspensão do enriquecimento de substâncias pelo Irã, uma das principais exigências de diversas resoluções do Conselho de Segurança da ONU. - Não temos qualquer razão para recuar na produção porque precisamos do urânio a 20% para satisfazer as nossas necessidades - explicou Abbasi, segundo a rede estatal de TV do Irã. Os comentários de Abbasi devem complicar ainda mais as negociações nucleares entre o Irã e as potências mundiais. Ambas as partes tiveram um malsucedido encontro na semana passada em Bagdá e devem continuar as conversas em Moscou no próximo dia 18. Se não houver acordo, as potências pretendem apertar, no início de julho, as sanções às exportações vindas de Teerã e suas operações financeiras - o que incluiria um embargo total europeu à compra do petróleo iraniano. O enriquecimento de urânio no Irã está no centro destas discussões devido à suspeita dos países ocidentais de que a república islâmica promove a operação para fabricar armas nucleares. O governo de Teerã, no entanto, assegura que seu objetivo limita-se à produção de energia nuclear para uso civil. Antes do encontro em Bagdá, Abbasi insinuara que seu país estaria pronto para chegar a um acordo sobre o seu programa de enriquecimento de urânio a 20%, que o Irã alega necessitar para manter a produção de isótopos de uso médico. Os negociadores de Teerã acreditavam que o governo do presidente americano, Barack Obama, e os aliados dos Estados Unidos estariam dispostos a permitir que o Irã continuasse a enriquecer o urânio a um percentual menor. Mas, durante o encontro em Bagdá, ficou claro que esta oferta não está na mesa. Em vez disso, as potências mundiais ofereceram outra proposta - o Irã exportaria sua reserva de urânio enriquecido e suspenderia qualquer nova produção. Em troca, o país receberia isótopos médicos. O plano foi recusado pelos negociadores da república islâmica, que fizeram uma contraproposta que permitiria a seu país continuar enriquecendo urânio. Os enviados iranianos também reivindicavam o desarmamento nuclear e, entre outras condições, a cooperação na luta contra piratas na Somália. Os funcionários iranianos não revelaram a quantidade de urânio enriquecido que o país deseja produzir. Um relatório divulgado sexta-feira pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou que Teerã já produziu 145 quilos da substância a 20%, mais do que havia encomendado em 1988 da Argentina. Em abril, Abbasi informou que a República Islâmica pretende construir mais cinco reatores médicos e, por causa disso, precisaria criar um estoque de combustível. Irã já enriqueceu urânio a mais de 20% Os países ocidentais temem que o Irã possa, em breve, enriquecer urânio a 95%, nível usado em armamentos. Alguns peritos, no entanto, duvidam de que o país detenha a tecnologia necessária para esta operação. O relatório da AIEA sobre as atividades nucleares do Teerã também revelou que, numa ocasião, foi encontrado no país resíduo de urânio enriquecido a mais de 27%. Segundo Abbasi, tratou-se de um erro técnico ou operacional. Os países ocidentais concordaram que a explicação é plausível. Já o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, clamou ontem o Parlamento a ficar do seu lado contra os "vilões" que, segundo ele, cercam Teerã. |




