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Farc atacam Bogotá em desafio a Santos

O Globo - 16/05/2012
 

 

Atentado é o 1 a deixar mortos na capital desde a posse do presidente

POLICIAIS EXAMINAM veículos atingidos pela explosão: governo fala em 2 mortes; imprensa contabiliza 4

. Aos marcos positivos que conseguiu no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - como a morte do líder máximo da guerrilha em 2011 e a libertação dos últimos militares sequestrados neste ano -, o presidente Juan Manuel Santos viu se somar ontem um terceiro, negativo mas igualmente simbólico. Uma importante zona comercial e financeira da capital Bogotá foi palco de um atentado a bomba que deixou pelo menos dois mortos e 25 feridos, pouco após a desativação de um carro-bomba supostamente destinado a explodir o quartel-general da polícia da cidade. A imprensa local afirma que são quatro os mortos.

É o primeiro ataque à capital a deixar mortos desde 2009, quando o presidente ainda era Álvaro Uribe. Durante a tarde, o comandante da polícia da cidade, general Luis Eduardo Martínez, disse ter provas contundentes de que as Farc estavam por trás do atentado. O presidente não mencionou diretamente a guerrilha, tratando o caso como terrorismo - qualificativo que costuma usar ao se referir a ela. Os guerrilheiros não tinham assumido a responsabilidade até ontem à noite.

Santos afirma que o alvo era o ex-ministro do Interior e da Justiça do governo Uribe Fernando Londoño, que ficou ferido no ataque mas passa bem. Os dois mortos confirmados eram o seu motorista e um policial que atuava como seu segurança. Londoño estava à frente da pasta em 2002, quando Uribe decretou estado de emergência na Colômbia, e é um ferrenho crítico das Farc. A Unidade de Proteção do governo tinha informações de que a guerrilha planejava um atentado contra ele.

- Estou bem. A ferida mais profunda que carrego é na alma - disse Londoño.

O carro do ex-ministro foi atingido por explosivos detonados por volta das 11h (13h de Brasília) no cruzamento da avenida Caracas com a rua 74. Imagens de circuito fechado de TV mostram uma pessoa deixando um pacote próximo ao veículo antes de sair correndo e fugir em uma moto pilotada por uma segunda pessoa. O suboficial que morreu no atentado ainda tentou agarrar o embrulho.

A pessoa gravada pelas câmeras de segurança usava uma peruca, que deixou cair na fuga e, na noite de ontem, ainda era buscada pela polícia.

Além do carro do ex-ministro, a explosão atingiu um ônibus que estava parado no local, aumentando o número de feridos.

O presidente Santos ofereceu 500 milhões de pesos (R$ 560 mil) para quem der informações que levem à captura dos responsáveis e a nunciou a criação de uma comissão especial para investigar o crime.

- Ainda não o eliminamos (o terrorismo) totalmente, mas seguiremos avançando - afirmou o presidente.

As Farc também são suspeitas de serem responsáveis pelo carro-bomba que foi encontrado na manhã de ontem na região central de Bogotá. A polícia, que conseguiu desarmar os explosivos, diz que o objetivo era atingir o seu quartel-general. Uma pessoa foi detida. No início da noite, Santos afirmou que não tinha sido possível estabelecer vínculo entre os dois casos até então.

O atentado e a ameaça levaram a capital do país a adotar medidas especiais de segurança. Estudantes foram dispensados das aulas e os motociclistas foram impedidos de levar pessoas na garupa. O prefeito Gustavo Petro pediu que os cidadãos ficassem alertas, ressaltando que a "as ações de ódio e vingança não podem paralisar Bogotá".

Viagem para celebrar tratado é cancelada

Os incidentes coincidiram com o dia em que Santos participaria de uma cerimônia em Cartagena para marcar a implementação, após anos de negociação, do tratado de livre-comércio entre a Colômbia e os Estados Unidos, principal parceiro de Bogotá no combate ao narcotráfico. Para Alfredo Rangel, diretor do Centro de Segurança e Democracia da Universidade de Sergio Arboleda, de Bogotá, marcar a posição contrária em relação ao acordo pode ser uma das motivações para a escolha da data. O presidente cancelou a viagem.

O atentado não impediu que a Câmara dos Deputados votasse na noite de ontem contra o arquivamento de um projeto de emenda constitucional que dá ao presidente Santos a possibilidade de oferecer benefícios jurídicos a guerrilheiros que abandonarem as armas e saíram da ilegalidade, abrindo caminho para a sua aprovação.

A ameaça levara parlamentares a cogitarem a hipótese de postergar o debate. O presidente da Câmara, Simón Gaviria Muñoz, disse, porém, considerar um "erro histórico permitir que o Congresso deixe de legislar" intimidado por atos de violência.

Santos assumiu o cargo em 2010 dando continuidade à "política de segurança democrática" criada e iniciada pelo governo Uribe, no qual foi ministro da Defesa.