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Marcas do passado, lições para o futuro

Autor(es): Alon Lavi
Correio Braziliense - 27/01/2012
 

 

Primeiro-secretário da Embaixada de Israel em Brasília

Tenho poucas lembranças do meu avô, Mordehai. Infelizmente, ele faleceu quando eu ainda era muito jovem. No entanto, tenho a vívida memória de sua aparência — uma cicatriz grande e longa lhe marcando a cabeça. Quando criança, costumava perguntar o que era essa cicatriz. Sempre recebia resposta vaga, em voz baixa, quase um sussurro: "É da guerra". "Que guerra?", eu me perguntava. Sabia que ele não era um soldado, nem em Israel, nem mesmo antes da vinda para o país. Então, eu não conseguia entender por que ele tinha estado em uma guerra e como adquiriu a cicatriz.

Muitos anos depois, tive o privilégio de liderar uma delegação de estudantes da minha universidade na Marcha dos Vivos, programa anual que leva pessoas de todo o mundo para a Polônia, onde são visitados os guetos e os campos de concentração e extermínio. Antes da viagem, comecei a questionar minha mãe sobre as histórias do meu avô: onde ele estava durante a Segunda Guerra Mundial? De onde ele escapou? Ele estava em um dos campos? Onde os membros de sua família foram assassinados? Com grande interesse, queria saber os detalhes sobre a história, o que aconteceu "na guerra".

Minha mãe, como muitos outros descendentes da geração de sobreviventes do Holocausto, não tinha a resposta. Seus pais, ambos sobreviventes, insistiam em não dividir com os filhos o passado. Alguns não queriam compartilhar os horrores, outros tinham vergonha e havia os que tentavam suprimir as memórias. Fiquei sabendo da sequência dos fatos por meio do irmão caçula do meu avô, que, devido a sua pouca idade, passou a maior parte do tempo junto a ele. A história deles começa em Zsaluschits, cidadezinha na Polônia onde, antes da guerra, cerca de 75% da população eram judeus.

Meu avô foi informado de que os judeus seriam deportados em 2 de setembro de 1942. Na véspera da deportação, eles executaram um plano de fuga. Essa foi a última vez que ele viu os pais, tios e outros membros da família. Desde esse dia, o que o manteve vivo foi estar sempre se mudando de um lugar para o outro e sempre sendo produtivo. Como a máquina de guerra nazista precisava de trabalhadores, os produtivos e saudáveis tinham mais chances de sobreviver.

O primeiro grande campo para onde eles foram levados foi o campo de trabalho Plashov, onde meu avô tinha que fazer o trabalho do irmão caçula para mantê-lo vivo. De lá eles foram para o campo de concentração de Buchenvald, na Alemanha. Nesse campo, meu avô conseguiu postos de trabalho para ele e o irmão, o que garantiu a sobrevivência de ambos.

Após alguns meses, meu tio-avô foi levado para o campo de extermínio de Methousen e meu avô tentou tirá-lo do caminhão. Um soldado nazista lhe bateu na cabeça com um chicote até ele perder a consciência — assim surgiu a cicatriz. Até o fim da guerra, quando os nazistas tentaram destruir as evidências e matar o restante dos judeus, meu avô foi deportado para o campo de concentração e extermínio de Terezinshtat, hoje na República Tcheca.

Nesse campo, que serviu à propaganda nazista dos 144 mil judeus que estavam lá, apenas 17 mil sobreviveram. O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, comemorado hoje, é homenagem às vítimas, a lembrança do genocídio que resultou na aniquilação de 6 milhões de judeus europeus e milhões de outros pelo regime nazista. A data foi estabelecida por Resolução da Assembleia Geral da ONU. Nosso papel, com a comunidade internacional, é garantir que atrocidades como essa não se repitam. O Holocausto deve sempre nos lembrar o que um regime extremo, unido ao ódio ao próximo, pode fazer e causar.

Na cidadezinha onde meu avô nasceu, não há mais judeus: os poucos que sobreviveram se foram. O que costumava ser uma vibrante comunidade judaica, repleta de história e cultura, é hoje local de resquícios de memórias distantes e dolorosas do passado.

Quando meu primeiro filho nasceu, tive a certeza de que era a prova da vitória do meu avô, a vitória da sobrevivência. O seu nome continuará vivo através do nome do meu filho: Mordehai. Esperamos que, ao comemorar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a data continue a nos lembrar que as atrocidades não podem se repetir jamais. Que isso nos reafirme sempre que devemos ser pessoas melhores, aceitando o outro, e não cultivar o ódio apenas por que alguém é diferente de nós.