Figurino ajustado
| Brasil S.A - Antônio Machado |
| Correio Braziliense - 27/01/2012 |
Os movimentos atuais da economia devem tirar do sério muita gente habituada a analisá-la pelo piloto automático. Pegue-se a taxa de desemprego: ela recuou de 5,2%, em novembro, para 4,7%, e fechou o ano na média de 6%, contra 6,7% em 2010, configurando um mercado de trabalho superapertado. É virtualmente um quadro de pleno emprego. As taxas elevadas de popularidade da presidente Dilma Rousseff e de aprovação do governo tem muito a ver com isso, com a sensação de bem-estar e de segurança no emprego. A taxa de desocupação variou de 3,1 % em Porto Alegre e 3,8% em Belo Horizonte a 7,7% em Salvador - a maior entre as seis regiões metropolitanas avaliadas pelo IBGE. O Brasil, hoje, é um dos países com o menor desemprego no mundo. Quase ao mesmo tempo, na quinta-feira, o Banco Central divulgou a ata de sua última reunião - na qual o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou de 11 % para 10,5% a taxa de juro básica, a Selic. E, de maneira surpreendente, abandonou a linguagem cifrada que utiliza nas atas para explicitar, sem rodeios, que "o Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares de um dígito". Cresce a aposta, assim, de que até abril ou maio a Selic chegará ao nível de 9,5%. "Mas como?", deve ter reagido a turma dos manuais, que preparava o cenário de recidiva do ciclo de alta da Selic do final do ano para frente, mais tardar em 2013, duvidando da intenção da presidente de chegar a 2014 com a taxa Selic alinhada aos padrões internacionais. Isso implica, com inflação, digamos, de 5%, trazê-la para 7% a 8%, equivalendo a juro real de 2% a 3% ou algo perto disso. Em tempos bem recentes, pela ótica do mercado de trabalho, o BC já deveria estar cogitando outro arrocho monetário, temeroso quanto ao risco do emprego aquecido para a convergência da inflação ao centro da meta anual de variação (4,5%, tendo sido de 6,5% em 2011). Mas o BC já não vê a Selic como o único instrumento contra a inflação. BC sem heterodoxias "Na era Dilma", diz Carlos Eduardo Gonçalves, consultor sênior da LCA, "tentar entender os próximos passos do BC requer um exercício de extração de sinal sobre o que o governo pretender fazer. Não tem mais essa de BC agindo à revelia do governo como antes". Para ele, o governo "tem sim por objetivo a redução da taxa de juros básica, contanto que isso não seja muito danoso para a inflação futura". Gonçalves parece certo quanto à convicção de Dilma de que os juros no país agridem a lógica. Mas o BC talvez não seja tão heterodoxo assim ao não considerar apenas o nexo entre o desemprego em recorde de baixa e o seu efeito sobre a inflação, condicionante da Selic. Está frio ou quente? A leitura atenta da pesquisa mensal de emprego do IBGE aponta para o quadro de pleno emprego, de fato, mas também indica que o mercado de trabalho está perdendo dinamismo. Por qual sinal se deve optar? A questão a considerar é que a redução do desemprego para 4,7% em dezembro (não obstante, ajustado aos efeitos sazonais, tenha subido de 5,5% em novembro para 5,6%) tem mais a ver com a fraca expansão da população economicamente ativa (PEA) no mês que com o aumento da taxa de ocupação, ou seja, com a abertura de novas vagas. Com o ritmo adequado A população ocupada cresceu 1,3% sobre dezembro de 2010. Mas, entre fevereiro de 2010 e agosto de 2011, crescia a taxas acima de 2%, diz o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida. Reduziu-se, portanto, o ritmo de criação de emprego, o que é corroborado pelos números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) dos últimos meses. Em dezembro, houve o fechamento líquido de 408,2 mil postos. Já a desaceleração da PEA, de 1,4% em novembro para 0,7%, parece responder aos efeitos da baixa qualificação da mão-de-obra para a oferta de vagas oferecidas, a taxa demográfica (já estruturalmente cadente) e à expansão da renda, o que desestimula a busca de outra ocupação em reforço ao orçamento familiar. Mas, embora expressiva, a renda já não cresce como antes, aliviando a pressão consumista. Um resultado esperado O ponto a bater é que tais resultados não são inesperados, mas decorrentes da pilotagem da política econômica. Com massa salarial crescendo a 7,4%, como em 2010, a inflação teria ido além do pico de 7,3% em 12 meses cravados em setembro. A 4,8%, média de 2011, o BC pode mirar a Selic estruturalmente abaixo de 10%, considerando que haja consistência fiscal e ausência de pressão cambial. Para a consultoria LCA, a taxa de desemprego reage com defasagem à evolução dos rendimentos. "É razoável supor", diz ela, que o viés de desaceleração dos rendimentos logo poderá manifestar-se na taxa de desemprego. O recorde de baixa em dezembro não teria vida longa. |




