Por que a Alemanha é diferente?
| Autor(es): MARCOS CORONATO. COM NATHALIA PRATES |
| Época - 23/01/2012 |
Os alemães estão no meio da crise europeia, e mesmo assim sua economia mantém o vigor, a confiança e o poder para afetar o mundo, incluindo o Brasil. Qual é o segredo?
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco Standard & Poor"s passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha como porto seguro econômico. Logo no início do ano, o país havia recebido outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a americana Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro para alguns países, como os Estados Unidos, o Japão e – adivinhou? – a Alemanha. Os feitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos anos, a clamar por seu lugar de volta na política global. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas – compôs a força internacional de combate aos talebans no Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esse status, mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás. 1. Por que confiar na Alemanha? O gasto público já vinha sendo restringido e crescia em ritmo inferior ao do conjunto da economia desde 2004. Em 2010, por causa da crise, o governo aumentou o esforço, com aumentos de impostos (a competitividade do país é organizada para resistir a esses impactos) e cortes de gastos (as medidas incluem a demissão de 15 mil funcionários públicos). Graças ao esforço de sobriedade, a dívida pública está em queda mais rápida que a esperada, e o saldo negativo das contas voltou para abaixo dos 3% do PIB. 2. Como os alemães mantêm os empregos? Os economistas Michael Burda, da Universidade Humboldt, de Berlim, e Jennifer Hunt, da Universidade McGill, no Canadá, listaram algumas explicações. Antes da crise, as empresas alemãs já mostravam comedimento – contratavam devagar e davam aumentos que acompanhavam os ganhos de produtividade. Esses dois fatores já inibiriam as demissões. Mas os alemães conseguiram reduzir o desemprego durante a crise – mesmo com cortes de gastos públicos, que normalmente esfriam a economia – também por causa da reforma trabalhista, iniciada em 2003. Os contratos se tornaram mais flexíveis, para contemplar, por exemplo, empregos por tempo determinado. Os "bancos de horas" se tornaram difundidos e são levados muito a sério – horas trabalhadas a mais, até certo limite, podem ser convertidas em horas de folga futuras, o que dá flexibilidade às empresas para produzir menos sem demitir. A poderosa indústria alemã não defendeu sozinha o emprego no país. "A Alemanha criou no setor de serviços muitos empregos flexíveis, com meia jornada", diz o sociólogo alemão Werner Eichhorst, diretor do Instituto de Estudos do Trabalho, em Bonn. A mão de obra alemã ainda se beneficia de uma ótima educação, que produz um grande número de trabalhadores altamente produtivos e especializados – valorizados pelas empresas. 3. Como eles resistem à China? Primeiro, grande parte da indústria da Alemanha ainda consegue evitar a concorrência chinesa, porque exporta bens intermediários – aqueles comprados por empresas, não por indivíduos. Enquanto o resto do mundo tenta, em vão, competir com a China na produção de calçados, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos e bugigangas em geral, os alemães correm por fora, abastecendo o planeta com produtos químicos, turbinas, geradores, máquinas pesadas e tudo mais que seja necessário para colocar uma fábrica em funcionamento (itens desse tipo correspondem a quase metade da exportação alemã). Por causa da expansão das empresas em países como China e Brasil, a demanda por esses produtos fora da Zona do Euro cresceu 25% no ano passado, segundo a economista Dorothea Lucke, do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica. A fórmula não é à prova de falhas, já que a China também avança rapidamente para a produção de máquinas industriais. A economia alemã conta, no entanto, com um segundo trunfo: o país reúne muitas empresas pequenas e médias, que empregam muitas pessoas e são ágeis para se adaptar às circunstâncias. "As pequenas e médias empresas na Alemanha são muito fortes, muito competitivas. Elas trabalham sempre de olho no mercado global, para exportar", afirma Antônio Corrêa de Lacerda, coordenador do Comitê de Economia da Câmara Brasil-Alemanha e economista-chefe da Siemens. 4. Como a Alemanha mantém os benefícios sociais? |




