Caminho mais fácil
| Brasil S.A - Antônio Machado |
| Correio Braziliense - 18/12/2011 |
Indústria para baixo e demanda para cima é como vício: prazeroso no ato, com sequelas duradouras
Sem derrocada do euro ou um pouso abrupto da economia da China, tais prognósticos devem se cumprir, embora, por ora, o consenso entre economistas e empresários leve a um cenário mais discreto para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), com o ritmo de crescimento vindo de algo como 3% este ano para 3,5% a 4%. Nessas simulações, a inflação não volta à meta central de 4,5%, mas ficaria abaixo do teto do intervalo de variação, 6,5%, que é o resultado mais provável para este ano. A depreciação cambial, portanto, estaria descartada, com o real forte voltando a apoiar o Banco Central contra a inflação. A taxa mais ouvida é R$ 1,75. Em contrapartida, a Selic pode continuar desinflando, estando ambos os movimentos, juros e câmbio, sintonizados com a retomada do crescimento pelo consumo — função de crédito fácil e de renda disponível e emprego, no mínimo, mantidos nos patamares atuais. O real depreciado, nesses termos, afronta a elevada avaliação que a presidente continua a receber, conforme a última pesquisa do Ibope, e nada indica que queira contraditá-la. Ao contrário. O resultado final em 2012, baseado em tais pressupostos, deverá ser a volta do que os economistas do Morgan Stanley batizaram de "descompasso do crescimento" — a demanda doméstica relativamente aquecida em contraponto às dificuldades da indústria. A taxa de câmbio apreciada em relação aos custos de produção (de impostos a salários, dos serviços de infraestrutura ineficientes e caros à burocracia regulatória) rasga uma avenida para as importações. A economia com tal direcionamento leva a três resultados. Para Dilma, o PT e os partidos da base aliada, permite contar com os votos da percepção de bem-estar pelo eleitor, questão-chave nas eleições municipais marcadas para outubro. Para os analistas do mercado financeiro, projeta a expectativa de repique da Selic no fim de 2012. Para economistas atentos aos ciclos do crescimento, ampliam-se o risco de que aumente a dependência das commodities e do viés de enfraquecimento da indústria de manufaturados. Qualidade do crescimento "Mais importante do que o quantitativo do desempenho econômico é a estrutura desse crescimento", diz Julinho, como é conhecido. Colhe-se o que se planta E isso por quê? Porque, ao contrário do padrão asiático, aqui o consumo de famílias, que cresceu 14,2% nesses três anos, puxou a expansão do PIB, cabendo ao investimento, com aumento de 11,8%, papel subsidiário. Exportações, diz ele, apesar de "toda pujança do agronegócio e da mineração", cresceram 5,1%, "sucumbindo ao fraco aumento (5,1%) das exportações de manufaturados". Já as importações, "também manifestando a frágil competitividade da indústria", tiveram acréscimo "elevadíssimo", de 31,7%. Pobre, com pinta de rico Manufatura em retração Sem tais atividades, tem-se a tal indústria manufatureira ou de transformação (carros, têxteis, eletrônicos), onde estão os bons empregos e a inovação tecnológica. Ela acumula queda de 3% desde 2008. Se o desenvolvimento vem daí, o modelo deve ser revisto. |




