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O eterno retorno

Brasil - Antonio Delfim Netto
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 09/02/2010
 

Os economistas estão perdendo tempo tentando "explicar" a crise financeira de 2008 com modelos econômicos sofisticados e misteriosos métodos econométricos. Henry Paulson, secretário do Tesouro do presidente Bush, disse, ao tomar posse, que "vinha para passar uma borracha sobre o que restava do controle financeiro construído no passado". O "passado" era o pacote de medidas postas em prática no governo de Roosevelt: 1) o "Securities Act", de 27 de maio de 1933; 2) o "Glass-Steagall Act", de 16 de junho do mesmo ano; e 3) o "Securities Exchange Act", de 6 de junho de 1934. Medidas que foram, em parte, sugeridas pelas conclusões do famoso "Relatório Pecora", onde se demonstraram os efeitos trágicos da mitologia que o sistema financeiro, deixado a si mesmo, respeitava a moralidade, era capaz de "autorregular-se" e de garantir o patrimônio que o público lhe confiava.

Todas as investigações para entender o que se passou em 2008 são desnecessárias e, na melhor das hipóteses, pura tolice. Procuram a causa do fenômeno no lugar errado: 1) a má formação das instituições que controlam o sistema financeiro e os incentivos perversos que os dominam; e 2) insistem na imoralidade ínsita no comportamento dos grandes operadores de Wall Street. O próprio Paulson que, na suposição mais benéfica, foi apenas uma testemunha inocente, que se encontrava desavisadamente no local do crime, apontou a "verdadeira" causa da tragédia: o governo inglês, que vetou a compra do Lehman Brothers pelo Barclays, que passou muito apertado no decorrer da crise e foi salvo por um fundo árabe...

Henry Paulson pode ter sido um bom banqueiro, que internalizou o espírito do tempo: o sistema financeiro observaria escrupulosamente o "imperativo categórico" kantiano e seria capaz de autorregular-se, dispensando a "tutela do Estado". Esta apenas aumentaria o custo de transação e reduziria a produtividade e a eficiência do sistema. Ele sabia disso por experiência própria e bem vivida: foi presidente da Goldman Sachs por oito anos, antes de ser promovido a secretário do Tesouro dos EUA! Certamente ele tem outros méritos. É um dedicado conservador e um dos grandes financiadores do Partido Republicano...

Infelizmente, quando propôs sua solução para o problema do Lehman, mostrou ignorar uma equação química elementar: banco podre + banco podre = banco podre ao quadrado.

É claro que a crise de 2008 não foi obra apenas de Paulson, mas da insana e sistemática eliminação das restrições impostas, como consequência da grande crise de 1929, ao sistema financeiro americano no primeiro quinquênio dos anos 30 do século passado. A desmontagem começou em 1980, com o "The Depository Institutions Deregulation and Monetary Control Act" no governo democrata, de J. E.Carter (1977-81). Terminou com o "Gramm-Leach-Bliley Act", de 1999, no governo democrata de Clinton. Houve liberação geral! Voltou-se à situação anterior ao "Glass-Steagall Act", que incorporara alguns resultados das investigações do Congresso americano.

Este tem uma tradição de 200 anos na investigação de problemas nacionais agudos. A primeira foi em 1792. Em 1932, o Senate Banking Committee começou a investigar a grande crise, com pífios resultados. Poucas semanas antes de terminar seu prazo, o Senado contratou Ferdinand Pecora (procurador da cidade de Nova York) para completar o trabalho. Ele pediu permissão para novas oitivas e obteve mandados de busca nos maiores bancos, executados por auxiliares competentes.

No depoimento de Charles Mitchel (chairman da National City Company), ele foi confrontado com fatos que o obrigaram a confessar que o City transferia seus investimentos próprios mal sucedidos para os seus clientes menos prevenidos, o que o levou a demitir-se. Descobriu-se, também, que ele sonegava imposto de renda. Foi processado por evasão fiscal. Em maio de 1933, o Banking Committee ouviu o poderoso banqueiro J.P.Morgan Jr., que saiu devidamente depenado de sua arrogância e, diante das evidências, confessou suas "artes".

O Relatório Pecora fez uma autópsia do sistema financeiro americano no início dos anos 30:

1) ele produziu uma "orgia" especulativa ao longo dos anos 20. Os banqueiros e o Fed foram acusados pelo Congresso de desviar os recursos que deviam aplicar no sistema produtivo para financiar a "bolha" da bolsa americana e de se aproveitarem de "insiders" para benefício próprio;

2) realizou vendas fraudulentas de ações novas. Quando houve a quebra, ficou provado que nada valiam. Alguns "underwritings" eram claramente criminosos, porque os banqueiros sabiam que as ações nada valiam, mas atraíam, com seu prestígio, os investidores ingênuos; e

3) os bancos manipulavam a formação dos preços das ações usando dinheiro de seus depositantes. J.P.Morgan Jr. confessou que tinha uma "lista preferencial" para clientes especiais.

Qualquer semelhança entre o que apurou o Relatório Pecora e o que sabemos sobre 2008 não é mera coincidência! É a evidência que o sistema financeiro mal regulado tende a voltar à cena do crime...