Tenso, câmbio espera novas medidas
| Por dentro do mercado - Luiz Sérgio Guimarães | |||
| Valor Econômico - 09/11/2009 | |||
O dólar quase não se mexeu na sexta-feira. A tensão e a incerteza inibiram os negócios. O mercado desconfia que o governo prepara um megapacote destinado a conter a apreciação cambial. Ao contrário dos dias que antecederam ao início da cobrança do IOF, no dia 20 de outubro, desta vez os grandes investidores não parecem dispostos a ampliar as entradas para escapar das novas medidas. A falta de interesse em se adiantar a elas se deve ao medo do desconhecido. É fato que nos quatro primeiros dias de novembro o dólar teve uma direção única, de queda. Mas a desvalorização acumulada no período, de 2,16%, não foi tão intensa a ponto de poder ser considerada uma provocação. E o piso de R$ 1,70 - para cuja manutenção parece ter sido instituída a cobrança do IOF - não foi ameaçado desta vez. Na sexta-feira o dólar oscilou muito pouco e fechou com leve queda de 0,17%, vendido a R$ 1,7190.
O mercado apoia as mudanças no marco regulatório do câmbio defendidas pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. As leis são do tempo em que era necessário desestimular a saída de capitais. Mas o mercado reconhece que a liberalização da entrada e da saída de dólares, embora medida coerente com os postulados do câmbio flutuante, não ataca o cerne do problema, já que este não está na saída, mas na entrada. E a tendência é de os ingressos de capitais se intensificarem, pois todos os sinais são de que o Federal Reserve (Fed) será o último banco central a subir o juro no mundo. Os dados sobre o mercado de trabalho americano divulgados na sexta-feira reforçaram a expectativa de que o Fed manterá os estímulos monetários no ponto atual até quando for preciso, sem precipitações. A taxa de desemprego pulou de 9,8% em setembro para 10,2% em outubro. E 190 mil postos de trabalho foram extintos, quando os economistas previam o corte de 175 mil empregos. E quando, em seus textos oficiais, o Fed menciona a "ociosidade dos recursos" como fator que o leva a segurar o juro no atual patamar ele está se referindo ao mercado de trabalho. No entender do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, o BCE deve elevar os juros na Europa bem antes do Fed. Com isso, as aplicações em euro se tornarão mais rentáveis que as denominadas em dólar. Isso favorece a apreciação do euro com relação ao dólar. "E reforça a fraqueza da moeda americana no mercado cambial mundial, visto que fica cada vez mais claro que os EUA serão os últimos a elevar os juros", diz Leal. Portanto, na sua visão, a ajuda que a conjuntura internacional tem dado à apreciação cambial brasileira não deve se dissipar tão cedo. Para Sidnei Nehme, diretor da NGO Câmbio, o governo perde tempo com medidas fiscais e normativas contra a apreciação cambial. Para ele, a formação do preço da moeda americana é inelástica frente à criação de tributos ou a introdução de medidas cambiais. Estas têm apenas um impacto psicológico transitório. Mesmo que as medidas tenham como alvo reduzir o fluxo de capitais, como o BC já atua na esterilização dos excedentes, "tanto faz o fluxo ser reduzido ou aumentado". Se o BC mantiver inabalável sua decisão de retirar do mercado volumes inferiores ao superávit do fluxo cambial, a recuperação do preço da moeda americana ocorrerá na mesma proporção em que os bancos consigam cobrir suas posições "vendidas" no mercado de câmbio futuro. Liquidamente, entre os pregões de cupom cambial e dólar futuro, os bancos estão "vendidos" em US$ 6,12 bilhões, o dobro das posições "compradas" à vista. O problema da excessiva apreciação do real é unicamente, na opinião de Sidnei Nehme, técnico-operacional. Embora as medidas da Fazenda possam trazer o benefício de ampliar a arrecadação federal, a sobrevalorização da moeda nacional pode ser obtida por meio de atuações da autoridade e da regulamentação das posições dos bancos. Não são muitos os que, após o tombo de cinco pontos percentuais sofrido pela Selic de janeiro a julho, ainda defendem uma queda maior do juro básico para combater a apreciação cambial. Na primeira semana de novembro, o CDI mais negociado no mercado futuro da BM&F caiu de 10,34% para 10,12%, mas a curva ainda "precifica" um aperto monetário de três pontos no ano que vem. Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças E-mailluiz.guimaraes@valor.com.br |





