You are here: Home Notícias 2009 11 9 Pré-sal x eleição
 
Document Actions

Pré-sal x eleição

Nas Entrelinhas
Correio Braziliense - 09/11/2009
 

A meta do presidente é não permitir que a briga dos royalties afunde a sua candidata. Óleo e água não se misturam, mas esse óleo do pré-sal e a eleição já se misturaram faz tempo


 
 


O presidente Lula posou, há tempos, com as mãos sujas de óleo. Em agosto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, desfilou de verde e ainda discursou no lançamento do pacote de projetos sobre o marco regulatório da exploração de petróleo da camada pré-sal. Foi uma festança em que a maioria dos governadores — até os mais reticentes com o novo modelo — apareceu e aplaudiu. Passados seis meses do convescote no Centro de Convenções de Brasília e com as propostas próximas da votação na Câmara, o governo quase perdeu esse clima de união nacional em torno do tema petróleo. E, por tabela, a ministra por pouco não passou de musa a madrasta do novo modelo. E, ainda que haja todo um esforço, essas votações estão prestes a se transformarem numa armadilha para o Poder Executivo e sua candidata.

Vejamos: na sexta-feira, houve quem dissesse que Dilma deveria tomar muito cuidado para não sair do processo com a pecha de quem tirou os bilhões de royalties e a participação especial do Rio de Janeiro, o terceiro colégio eleitoral do país. Com 2010 à porta, essa tarja para a ministra seria tão incômoda quanto uma minissaia. Ela perderia os votos do Rio e não teria garantido os dos demais estados, já que os recursos do pré-sal só devem pingar nos estados não produtores a partir de 2012.

Ao mesmo tempo, se o governo atender tudo o que os estados produtores desejam, ficará difícil destinar muito dinheiro do pré-sal para os estados não-produtores, uma turma que está mobilizada há tempos para garantir um naco dos royalties e que não vai querer ficar à míngua. Ou seja: Dilma corre o risco de desagradar também os nordestinos. Todos estarão em Brasília esta semana para tentar puxar a sardinha, ou melhor, a picanha do pré-sal, para o seu prato. A turma do Rio, vestida para a guerra, não vai deixar de defender o dinheiro do estado e correr o risco de perder a eleição. Os estados não produtores, por sua vez, querem dizer aos seus eleitores que o petróleo é de todos e que essa “picanha azul” vai alimentar seus planos de desenvolvimento.

E o contribuinte, ó…
Se os problemas do governo nesse campo fossem apenas a briga dos governadores pelos royalties, estava fácil. Ocorre que, enquanto os governadores brigam pelos recursos de um óleo que não se sabe sequer se será plenamente viável extrair do ponto de vista econômico e tecnológico, o cidadão comum já quer saber do seu bolso. No sábado, chamou a atenção da coluna — e de alguns ministros de Lula — a pergunta de um ouvinte da rádio Senado. Ele queria saber se o preço da gasolina vai cair no Brasil por conta do petróleo do pré-sal e quando isso vai acontecer. No governo, soou como um alerta: se a população se frustrar nesse tema, a ministra Dilma pode perder votos.

No caso do ouvinte da rádio, a resposta ficou a cargo de um senador da oposição, Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que não saiu do trivial “ainda não se sabe”, e coisa e tal. Bem mineiro. E olha que o senador foi muito bem, dentro do que era possível dizer ao contribuinte. Afinal, o pré-sal ainda é uma incógnita, uma vez que o debate sobre o tema e a exploração desse petróleo engatinham. Dentro do governo, tem gente com medo de que essa história de baixa no preço da gasolina se espalhe e o povo cobre essa atitude do governo no período eleitoral, com o óleo do pré-sal ainda encrustrado na rocha. E, pelo andar da carruagem, nem em outubro de 2010 será possível dizer com segurança ao eleitor como ficará o preço da gasolina e do diesel quando o óleo do pré-sal estiver bombando. Tampouco haverá segurança para dizer quanto será extraído e quanto será aplicado.

A história mostra que o governo tem contingenciado os recursos de royalties para fazer face ao superávit. Nada garante que não vai repetir o mesmo com o dinheiro do pré-sal. E as regras e os custos de exploração ainda não estão suficientemente claras para permitir aos técnicos que façam cálculos e projeções seguras. Portanto, o eleitor terá que esperar muito para ter uma resposta.

Enquanto perdurarem as incertezas, o governo viverá nesse tema a linha do “a cada dia a sua aflição”, trabalhando para não perder o tal clima de união nacional, que ficou no imaginário popular desde que Lula passou a desfilar de macacão da Petrobras pelo Brasil afora, falando maravilhas do pré-sal. Por isso, além do sistema de partilha, o que mais importa para o governo no momento é manter essa sensação de “para frente, Brasil”.

Foi em nome desse sentimento de união que Lula pediu para o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), não votar nada de royalties hoje. A ideia é só tratar desse tema depois de uma reunião amanhã, quando o governo verá o que é possível ceder aos estados produtores. A meta do presidente é não permitir que a briga dos royalties deixe esse óleo tão pesado que afunde a sua candidata. Óleo e água não se misturam, mas esse óleo do pré-sal e a eleição já se misturaram faz tempo.