Ford muda e dá a volta por cima
| Autor(es): Cleide Silva |
| O Estado de S. Paulo - 09/11/2009 |
Uma receita já adotada pelo Brasil no início da década, de cortar custos e desenvolver produtos que caem nas graças dos consumidores, ajudou a Ford Motors a provar que é possível ganhar dinheiro num mercado em crise. A montadora foi a única entre as grandes companhias do ramo a obter lucro no terceiro trimestre de 2009. Ao anunciar ganhos de quase US$ 1 bilhão nas operações globais no período, a Ford também dá um sinal ao mundo de que a tempestade que se abateu sobre o mercado americano pode estar diminuindo de intensidade.
No fim da década de 90, a Ford do Brasil quase fechou suas portas, mas conseguiu uma reviravolta ao adotar um plano de redução drástica de custos. Nos anos seguintes, inaugurou a mais moderna fábrica do grupo, em Camaçari (BA), e criou um veículo que até hoje tira o sono dos concorrentes, o EcoSport. O modelo inaugurou um novo segmento no mercado brasileiro, o de utilitários esportivos de pequeno porte. A empresa também renovou outros produtos e é lucrativa há mais de cinco anos. A fábrica de Camaçari e o EcoSport foram "o divisor de águas" entre a Ford que quase faliu e a Ford que está melhor que a matriz há vários anos, diz o consultor José Roberto Ferro, do Lean Institute. Segundo ele, conceitos adotados no Brasil foram levados para a matriz, ainda que não em sua plenitude, como o processo integrado de produção, com fornecedores dentro da linha de montagem. "A Ford dos Estados Unidos passou por um processo de reestruturação semelhante ao do Brasil", confirma o diretor da Ford Brasil, Rogelio Golfarb. Além de mudanças no processo de manufatura, no relacionamento com a rede de distribuição e do lançamento de produtos atraentes, a matriz contou com a astúcia de executivos que se anteciparam à pior crise que o setor automotivo americano assistiu em mais de 30 anos. Pouco antes de o setor financeiro desabar, provocando efeito dominó no resto da economia, a Ford captou US$ 23,6 bilhões, na época visto como ato de desespero. Mas o dinheiro evitou que a companhia recorresse à ajuda governamental, como fizeram as concorrentes General Motors e Chrysler, que ainda tiveram de passar por processo de concordata. Para Bernd Gottschalk, ex-presidente da Organização Internacional dos Construtores de Automóveis (Oica) e hoje na empresa alemã de investimentos Macquarie, ao recusar ajuda do governo, o presidente da Ford, Allan Mulally, passou a ser visto como uma liderança forte. "E os americanos adoram líderes." A percepção desfavorável em relação à GM e à Chrysler certamente reverteu-se em vendas para a Ford, que teve ajuda do programa do governo para a troca de carros velhos por novos. "Foi um pequeno milagre o que a Ford conseguiu", diz Gottschalk, que cita ainda a disponibilidade da Ford em oferecer carros pequenos e de baixo consumo de combustível, modelos que hoje atraem muitos consumidores americanos. Outra ação que ajudou a Ford a reduzir custos, atingindo uma economia de US$ 4,6 bilhões nos nove meses deste ano em relação a 2008 foi o uso, em todas as fábricas do grupo no mundo, de plataformas comuns. Numa mesma estrutura, cujo custo de desenvolvimento é elevado, são produzidos diferentes modelos, adequados ao mercado regional. Segundo Golfarb, hoje entre 10% e 15% das plataformas de carros da marca são globais, porcentual que deve chegar a 80% em 2012. No ano passado, a Ford registrou prejuízo global de US$ 14,6 bilhões, o pior de sua história. Este ano, o lucro de US$ 997 milhões obtido no período julho-setembro teve ajuda até mesmo da unidade americana, que não ganhava dinheiro desde 2005. A América do Sul, região em que o Brasil responde por 60% das vendas, participou com US$ 247 milhões, completando 23 trimestres seguidos no azul. Na opinião de Gottschalk, embora esteja no caminho certo, a Ford ainda tem muitos problemas a enfrentar, um deles é a ociosidade das fábricas na América do Norte. As principais concorrentes também começam a reagir. A GM tem um plano de reestruturação que começa a dar bons sinais nos EUA. A Chrysler, sob o controle da Fiat, apresentou na semana passada um plano para os próximos cinco anos que promete uma renovação completa de produtos. A Toyota, apesar do prejuízo inédito verificado este ano, não corre o risco de perder a liderança mundial em vendas alcançada em 2008. "Ao contrário, a tendência é a Toyota se distanciar ainda mais das concorrentes", diz Ferro, que também vê a posição de número três da Ford no ranking mundial ser ameaçada. A capacidade da Ford de dar a volta por cima, entretanto, é indiscutível. Artigo recente publicado pelo New York Times cita que a determinação do grupo em sobreviver é, em parte, reflexo da tenacidade da família Ford, que tem como líder Bill Ford, hoje presidente do conselho. As ações em posse da família valiam US$ 2,2 bilhões há uma década e, em janeiro deste ano eram cotadas a US$ 140 milhões. "Se fosse só um investimento financeiro, a família provavelmente teria saído do negócio anos atrás", diz Bill Ford no artigo. "É mais um compromisso emocional." |





